

por vezes as pessoas desiludem-nos, e fazem coisas que não percebemos. apanham-nos as fraquezas e remexem-nas, estrangulam-nas. Já me aconteceu isto algumas vezes, mas a última é sempre a pior. E deixa-me sempre a pensar que não vale a pena oferecer sorrisos por nada, dar palavras por coisa nenhuma.
Foi a última vez que apanhei aquele comboio. Olhamos para as coisas de uma maneira diferente, quando as fazemos uma última vez. Olhei para a sala antes de fechar a porta. Permaneci uns 10 segundos imóvel. Lembrei-me do último cigarro que fumei sentada naquele sofá, ao som de Maria Rita. De estar sentada ao teu colo. E dos beijos contra a parede.
hoje foi um dia extremamente mau. apanhei frio, esperei incansavelmente, observei os carros de Lisboa numa hora de ponta e desejei estar dentro de um deles. o bom da vida é termos a certeza que amanhã poderá ser um dia melhor. Sim, eu acredito que até aos pessimistas lhes passa pela cabeça uma ideia destas. E ainda acredito que amanhã será esse dia.
Apesar de tudo, e dos momentos de hoje não terem sido os mais açucarados, gostei do origami deixado no meu estirador: um pequeno pássaro de asas bem abertas, dobrado sabiamente.

a essência da minha vida passa por desenhar em qualquer lado. desenhar um sorriso, desenhar o amor, desenhar a luz que entra pela janela. desenhar-te, desenhar-me. desenhar no teu coração, desenhar nas tuas pernas e, melhor, nas tuas mãos... desenhar a vida que quero para mim - que não se desenha. desenhar 'ser feliz'. desenhar é um casulo de sonhos. desenho até com o chocolate que me sobrou. é essa a minha essência... desenhar, apesar de tudo...

hoje tive conhecimento que o meu professor do ano passado de projecto está muito doente. fiquei triste. as suas histórias eram 'de ir à lua', aprendi muito com os seus olhos-de-cor-indecifrável, com os seus dedos sempre a dançar no espaço, com aquelas suas lágrimas num dia importante. receio não ter mais nenhum professor como ele. que consiga transmitir arquitectura como um lugar comum, sem quaisqueres complicações.

sinto-me pequena, um polegarzinho. eu e a minha alma, as coisas mais pequenas do mundo. tenho as fotografias coladas na parede, e apetece-me descolá-las. tenho um barulho estranho lá fora, e só quero que desapareça. tenho-te a ti de um lado que não conheço, confundes-me. hoje, estranhamente, não queria os teus braços, nem os teus beijos só teus, nem o teu perfume e os teus olhos ausentes.

my dear
Sabes, isto não anda a correr nada bem. Ainda falta muita coisa completar-se e encaixar-se para que tudo fique um pouco melhor. Foi naquele teu último olhar que eu tive a certeza que, se me faltasses, iria ser complicado. E foi através daquele teu último conselho que descobri como a vida dos crescidos é bem difícil. Obrigaste-me a crescer mais rápido, a tomar decisões muito importantes, a fazer escolhas, a pensar mais vezes antes de agir e a ser mais responsável. Agora, que tenho este problema tão enorme, precisava do teu colo, das tuas mãos, das tuas contas, dos teus e-mails e dos teus telefonemas. Precisava que não me tivesses deixado, que não me tivesses obrigado a crescer.


amanhã vou ter arroz doce, e leite quente com chocolate, vou ter a tua voz apaziguadora que lembra o 'vai ficar tudo bem' quando haviam feridas nos joelhos. vou ter o meu canto da sala, onde fazia os trabalhos de casa, e estudava geometria descritiva. amanhã vou sonhar acordada através da janela para o quintal, vou falar sobre as coisas novas que fiz esta semana, e vou desejar que as horas não me fujam de entre os dedos.
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