e despias a roupa. e dizias 'gosto tanto de ti', enquanto te desfazias numa gargalhada de vergonha. repetias baixinho, quantas vezes fossem precisas. agarravas-me como se eu fosse muito pequenina e olhavas os meus olhos. só no fim me despias. muito cuidadosamente. muito lentamente. e cobrias os meus ombros com a tua boca.



está complicado.


um dia queria chegar a casa sem preocupações. sem mágoas, sem tristezas, sem lembranças, sem saudades.
infelizmente, desde Março que se tornou impossível. Para sempre vou ter saudades tuas. E dos teus olhos brilhantes. Das tuas mãos em cima das minhas quando era menina e brincava aos legos. Do teu sorriso. Ah, o teu sorriso.


o meu dia foi igual a todos os outros. mas hoje encontrei 5 euros no chão, cortei madeira, fumei um cigarro à janela enquanto trauteei uma musiquinha bossa nova, e sorri para um bebé no metro.


As coisas que me fazem feliz. Uma delas: chegar a casa.
Uma casa são as pessoas que lá vivem, os cheiros, a luz a que já nos habituámos. As vozes que embalam. O 'sítio' que já construímos. Nosso. À nossa maneira. Os livros que forram paredes, os sofás dormentes, o frio à janela.


por vezes as pessoas desiludem-nos, e fazem coisas que não percebemos. apanham-nos as fraquezas e remexem-nas, estrangulam-nas. Já me aconteceu isto algumas vezes, mas a última é sempre a pior. E deixa-me sempre a pensar que não vale a pena oferecer sorrisos por nada, dar palavras por coisa nenhuma.


e há um dia em que perdemos toda a cumplicidade que ganhámos. acabaram-se os 'queres vir comigo?' ou os 'eu vou-te buscar'... Acabaram-se as confidências e tudo aquilo que me custa pensar agora.


é óptimo saber que estás aí. que todos os dias viajas com o teu carro para todo o lado. que te espreguiças daquela maneira sempre que acordas. que fumas um número infindável de cigarros só porque sim. e que ainda continuas a arranjar motivos para festejarmos.




até os dias a preto e branco podem ser bonitos.
ambientes





sexta-feira à tarde, uma chuva chata lá fora e um frio branco. um chá quente, cobertores da avó e uma vontade de fazer nada daqui até à lua. novembro a terminar, ou dezembro a começar?

Foi a última vez que apanhei aquele comboio. Olhamos para as coisas de uma maneira diferente, quando as fazemos uma última vez. Olhei para a sala antes de fechar a porta. Permaneci uns 10 segundos imóvel. Lembrei-me do último cigarro que fumei sentada naquele sofá, ao som de Maria Rita. De estar sentada ao teu colo. E dos beijos contra a parede.

tudo o que eu queria agora era o teu cheiro. apenas isso. encostar a minha cabeça ao teu peito. só.

hoje foi um dia extremamente mau. apanhei frio, esperei incansavelmente, observei os carros de Lisboa numa hora de ponta e desejei estar dentro de um deles. o bom da vida é termos a certeza que amanhã poderá ser um dia melhor. Sim, eu acredito que até aos pessimistas lhes passa pela cabeça uma ideia destas. E ainda acredito que amanhã será esse dia.
Apesar de tudo, e dos momentos de hoje não terem sido os mais açucarados, gostei do origami deixado no meu estirador: um pequeno pássaro de asas bem abertas, dobrado sabiamente.
escrever-te-ia uma carta em alemão. Passava a gostar de heavy metal, e subia e descia até a um décimo andar pelas escadas, as vezes que fossem precisas.

a essência da minha vida passa por desenhar em qualquer lado. desenhar um sorriso, desenhar o amor, desenhar a luz que entra pela janela. desenhar-te, desenhar-me. desenhar no teu coração, desenhar nas tuas pernas e, melhor, nas tuas mãos... desenhar a vida que quero para mim - que não se desenha. desenhar 'ser feliz'. desenhar é um casulo de sonhos. desenho até com o chocolate que me sobrou. é essa a minha essência... desenhar, apesar de tudo...





o que eu queria agora


ar...

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