agora, que os dias ficaram mais curtos, que o sol está mais preguiçoso e que as praias ficaram vazias, quero encontrar uma forma para que te vicies em mim, que não queiras outra coisa senão o meu corpo, a minha voz, o meu cabelo, a minha conversa, as minhas histórias e até, as minhas mentiras. Quero que me ligues a meio da noite a pedir para vires a minha casa buscar algo que te esqueceste, e não consigas deixar a porta aberta porque os meus olhos serão suficientemente mágicos para te prender no meu sofá da sala.
agora, que os dias ficaram mais curtos, que o sol está mais preguiçoso e que as praias ficaram vazias, quero encontrar uma forma para que te vicies em mim, que não queiras outra coisa senão o meu corpo, a minha voz, o meu cabelo, a minha conversa, as minhas histórias e até, as minhas mentiras. Quero que me ligues a meio da noite a pedir para vires a minha casa buscar algo que te esqueceste, e não consigas deixar a porta aberta porque os meus olhos serão suficientemente mágicos para te prender no meu sofá da sala.
não há coincidências, não há mesmo! Nem existe aquela frase 'não, não pode ser', porque 'é sempre'. E depois, quando as peças do puzzle se encaixam, faz tudo sentido: o silêncio, o adeus, as faltas, os mergulhos no escuro, os 'não posso' e as infinitas desculpas inacreditáveis. Não estou magoada pelas coisas terem acontecido desta forma, porque este ano aprendi que a vida não faria sentido se fosse justa. Estou magoada por ter tropeçado novamente, pela segunda vez... Por continuar a ser a mesma distraída de sempre e por dar repetidamente só mais uma oportunidade. É óbvio que as pessoas não mudam de um dia para o outro! É claro que há sempre uma consequência que faz com que isso aconteça... Só eu não percebi, ou melhor, só eu não aceitei. Estou imóvel, com a garganta seca e o peito pesado. 
naquele momento os meus olhos ficaram sem lágrimas. nos momentos em que temos mesmo que chorar não choramos. os 40 minutos de viagem em silêncio e o reggae no rádio. o 'estás preparada?' e uma festa no cabelo. o beijo na testa. o abraço forte. o 'tás bem?' quase aflito. e o meu sempre sim. os olhos fixos nos carros, e nas casas, e nas nuvens, que desaparecem...
De repente as pessoas dispersaram-se, um indiano falava ao telefone, os pombos esvoaçavam - chatos, e o meu sentido distorcia-se aos poucos. Mandei uma mensagem rápida à T. e tirei o moleskine da mala, rabisquei umas quantas linhas perdidas e de repente senti os olhos baços. Lembrei-me do H. e dos seus longos abraços. Ele torna o meu peito pesado.
olá, gosto mesmo muito de ti.
E ontem fiz uma lista de todas as coisas que tu gostavas. (Tipo a lista que a Mariana está a fazer e me pediu para a ajudar, lista de prós e contras em preferir Évora ao Porto.)
Gostavas de futebol, oh o que tu gostavas de futebol, gostavas de dormir a sesta, e de te sentar no sofá a observar com atenção o que eu estava a fazer. Gostavas de fazer contas, e sabias a perfeita ortografia de todas as palavras. Gostavas de sorrir, muito, e gostavas de ver o telejornal mesmo que já conhecesses as notícias. Gostavas de me ir buscar à escola, e eu gostava tanto que o fizesses. Não gostavas do Natal, e eu aprendi a não gostar dele também.
Gostavas de mim, tanto... E sei que ainda gostas, e por isso gostava muito que me ajudasses agora. Adoro-te, adoro-te, adoro-te.
Só queria um abraço, uma palavra, queria que gritasses de novo comigo, queria ouvir-te tossir, ver-te no casaco verde de sempre, explicar-te o que significa pé direito duplo e dizer-te que finalmente memorizei que o sol nasce a sul.

dormimos essa noite juntos, abraçados, fiquei impregnada do teu cheiro e de ti - era disso que eu precisava. Só depois fizemos amor. Lembro-me do olhar antecessor e do teu sorriso confiante. Isso bastou-me. Lembro-me das tuas mãos, do sabor, da chuva rápida, e dos nossos ritmos cardíacos ainda mais rápidos. Lembro-me de sonhar que seríamos felizes para sempre. Parece perfeito, mas agora parece-me tão sem sentido... Chorei todas as vezes que te foste embora, por não conseguires ser transparente e por não me dizeres as palavras que todas as mulheres gostam de ouvir. Desta vez foi diferente. Fechei o meu coração. Para férias.

tem a pele gasta pelo sol e sorri porque faz parte do seu feitio, para camuflar a dor na alma que a asfixia. fuma todos os meses dois cigarros (este mês já fumou mais), só dois porque ainda não aprendeu a gostar do sabor. sonha todos os dias acordada, às vezes ao som de jazz, outras vezes bossa nova e muitas vezes chill out. queria ser mais feliz. feliz no sentido de conseguir acordar todos os dias com um sorriso verdadeiro nos lábios, com o coração descansado e com todas as pessoas que lhe dizem algo mais perto. vive ao sabor do vento, e logo ela... que não gosta de vento...

primeiro são os sorrisos, que não custam nada. custam tão pouco, que conseguimos fazer deles o que quisermos. Depois vem o entrelaçar das mãos, que é mais justo, mais verdadeiro. A seguir começas a roçar-te em mim, um perfume doce que tento guardar para sempre. fiquei com a certeza que são dos teus abraços que eu gosto mais na vida.


foi numa noite escura, literalmente sem luz. Chegámos a 'casa' apalpando o chão e sentindo as mesmas pedras de sempre, os mesmos ramos das árvores, seguindo as vozes de sempre. Os olhos não se uniram aos olhos só porque era impossível saber onde estavam, mas as mãos, essas, conheceram-se como nunca. Primeiro muito a medo, depois com confiança, e por fim com uma leveza inatingível.
já sinto saudades da luz intensa, de subir as ruas inclinadas que me deixavam sempre, sempre, sem fôlego. já tenho saudades da praça do Giraldo onde marcávamos encontros, dos cafés no Arcada, no Cup, saudades dos pombos apressados, da rua que ligava a minha casa ao Pingo Doce, essa mesma rua que percorri a soluçar quando me morreste. Morro de saudades de girar a chave na fechadura da casa enorme que foi minha, da cozinha de porta fechada em que fumámos muitos cigarros a três, do quarto lá ao fundo em que chorei nas primeiras noites, e nas últimas também. Vivo de saudades das gargalhadas nas noites frias e nas noites encaloradas de Évora, das suas ruas desertas e silenciosas, de atravessar a última passadeira sempre carregada de rolos de papel, dos olhos azuis da Teresa, da doçura da Sofia, dos fumos da Mary e da gritaria do Rui. Saudades da imponência dos claustros e dos seus pilares que perceberam as minhas angústias, as minhas tristezas, as minhas frustrações, as minhas desilusões e as minhas esperanças... também. Saudades dos lanches no bar escondido, onde roubámos postais e comemos iogurtes, onde desenhámos as casas dos nossos sonhos. Vou sentir falta da lentidão das horas marcadas pela sé, e ao mesmo tempo tão rápidas e ofegantes. Quase que choro.

'Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. E estive sozinho nos momentos mais difíceis da vida.'
antónio lobo antunes.
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