despimos a roupa muito depressa e sem sentido, para depois a procurarmos durante uma hora. amo-te para sempre.

tens uma indignação fácil


este blog começou porque o meu pai morreu sem avisar. E por isso, fui obrigada todas as vezes a acreditar na ideia esquemática de que quando perdemos uma coisa, há logo outra ao virar da esquina que podemos usufruir.
Mas hoje é um daqueles dias em que, quando rodo a cabeça para trás, consigo vislumbrar todos os momentos a milhões de distância, que se transformam rapidamente em lembranças. Uma vez não chega, e esta não será a última, mas queria que nesta vez que passou tivesse existido mais paixão, mais conversas sérias, mais vai-e-vens no baloiço, mais horas no sofá a ver filmes de Johnny Depp, e sobretudo mais verdade.
este blog nasceu do livro de Millan Kundera, A insustentável leveza do ser. E continuo com incerteza quando tenho que escolher entre o peso do amor, e a leveza do momento.



faltam cinco minutos para o momento final.




Por esta hora, todos os habitantes daquele compartimento já estão a dormir. Ou melhor, era suposto estarem todos a dormir mas, por exemplo, o senhor do D2 está constantemente debruçado à janela que dá para o pátio a fumar cigarros. Isto faz-me pensar que sofre de uma insónia inesgotável e sem solução. Ainda assim, se pensarmos que realmente estão todos a dormir, podemos passear entre as árvores sem que ninguém nos incomode. É isto que eu mais gosto aqui, é poder fugir da minha cama e entreter-me nos baloiços que morrem por de baixo dos apartamentos. Como não tenho medo do escuro, ando para lá e para cá sem nunca prever o fim. É neste momento que me imagino num outro mundo, num outro lugar.

imagino a tristeza de um sobrevivente. ao adormecer, sonha apenas com lembranças.

maquetamos?


Saberás um dia de cor a cor do céu, quando um dia ficares cego.

quero muito que desapareças de uma vez, que te apagues de mim, que me faças o favor de não dizer absolutamente nada. o que eu queria mesmo, mas é impossível, é que nem tivesses existido na minha vida.


não gosto de sentir o coração aos saltos, quer de ansiedade, quer de arrependimento. não gosto que me digam que não. não gosto de noites que começam às seis da manhã, nem do primeiro barulho de cidade na rua. não gosto de perder um sonho durante a noite, se ele for bom, claro! não gosto de voltar atrás em relação a permitir-te mais uma vez na minha cama.

Depois de muitos anos (se calhar nem foi há tanto tempo assim), eles voltam a encontrar-se como que por um triz. Cruzam-se numa rua de Lisboa e ela sente de novo os seus dezanove anos e aquela tarde tempestuosa. Aquele momento parece vindo de uma tela de cinema, eles quase que se abraçam mas têm medo de se magoar um ao outro de novo. Ela acha que não o magoou assim tanto, mas afinal nem sempre é fácil perceber quando estamos a magoar alguém. Mas voltemos àquele momento: ele ainda tinha menos cabelo e ela um ar mais grave e sério devido a todas a vicissitudes da vida. Ele tinha umas calças azuis escuras e uma camisa azul também, mas de um outro tom. Ela trazia um vestido perfeitamente de inverno, e umas maçãs do rosto salpicadas de um blush bem rosáceo. O ar frio dele tinha desaparecido de repente, talvez porque estava mesmo muito frio na rua e era incómodo trazer mais. Existe uma nuvem de fumo baça vinda do carro dos vendedores de castanhas, e ela lembra-se do seu primeiro ano de faculdade. Ele quase que se sente embaraçado, mas todo este tempo lhe deu a certeza que poderia ser tudo diferente, e por isso esboçou o seu maior e infindável sorriso. É fantástico como tudo muda, menos o sentimento amargo e irregular que sempre pairou entre aquelas duas sensibilidades. Combinam um café para amanhã, naquele mesmo café que ilustra aquele postal maquiavélico que foi este reencontro. Esse café pode nem nunca mais existir: ou porque ela decide deixar de insistir numa coisa que nunca funcionou, ou porque ele não teve tempo, esqueceu as horas. Nessa mesma noite, ele envia-lhe uma mensagem a trocar o café por um cinema. Ela recusa, inventa uma desculpa.

há qualquer coisa de muito errado comigo

Não tem que ser assim, não temos que fazer isto.
Se não quisermos.


Beatriz se calhar é uma mulher como eu, que anda constantemente num fio de arame muito frágil. (Eu sei que estou sempre a falar em arames de equilibrista, mas adoro esta metáfora.) Beatriz acende velas ao fim do dia, fuma cigarros na varanda, numa perfeita solidão. Ela pensa em mil e uma coisas, imagina reencontros com pessoas que já não fazem sentido e que passaram, literalmente, à história, pensa nas pessoas que vivem nos apartamentos do prédio em frente, e queria muito que tudo fosse mais fácil. Beatriz desilude-se com as pessoas que não são verdadeiramente cheias, que trocam o difícil pelo cómodo. Beatriz queria poder ensinar-lhes isso. Mas não é capaz. É uma tarefa bem impossível.

saber que aquela foi a última vez, é como um tiro num ponto vital. gostava de ter mais dois minutos contigo, esboçar-te o último sorriso e mostrar-te a verdadeira efemeridade das coisas.


não sei bem o que ainda faz sentido



Como se permite que dois erros aconteçam da mesma forma e seguidamente?



chega um dia em que reparamos no cerne da questão e tudo parece um mar de trevas. não querer mais não significa nada. mas magoa sentir que foi tudo mal feito, que nunca nada bateu certo.

perder tempo contigo não foi perder tempo - foi conhecer-me melhor. Imaginar que um dia poderemos estar na mesma cama dois dias seguidos já é utupia.

da janela soa um barulho ensurdecedor que não consegue manter-me melhor. odeio ter que permanecer mais um dia inteiro acordada.


emoções fortes


seremos sempre cinco à mesa, apesar de tudo, sobre tudo, além de tudo.


Marasmo entre as pétalas das flores que escaparam à secura do Verão e não querem que chegue o Outono.


Estou ligada num futuro blues.


É muito bom aquele choque de sensibilidades entre frio e quente.

sextas feiras de repente ficam límpidas e tudo parece mais fácil.



'a minha segunda casa'

ter aquela certeza, já alguma vez tiveram?


sabe-se apenas que amanhã é o nosso eterno destino

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