a vida nasceu lá fora, sem fazer qualquer tipo de barulho. adormeceu de seguida, de cansaço, de preguiça, sei lá. a vida que nós construimos desmoronou, como um castelo de cartas. a vida que eu descobri sozinha adormeceu. e eu fiquei sem saber o que fazer.


hoje tive conhecimento que o meu professor do ano passado de projecto está muito doente. fiquei triste. as suas histórias eram 'de ir à lua', aprendi muito com os seus olhos-de-cor-indecifrável, com os seus dedos sempre a dançar no espaço, com aquelas suas lágrimas num dia importante. receio não ter mais nenhum professor como ele. que consiga transmitir arquitectura como um lugar comum, sem quaisqueres complicações.

sinto-me pequena, um polegarzinho. eu e a minha alma, as coisas mais pequenas do mundo. tenho as fotografias coladas na parede, e apetece-me descolá-las. tenho um barulho estranho lá fora, e só quero que desapareça. tenho-te a ti de um lado que não conheço, confundes-me. hoje, estranhamente, não queria os teus braços, nem os teus beijos só teus, nem o teu perfume e os teus olhos ausentes.
de volta às mais de 12 horas acordada. ao sono merecido depois. e o acordar injusto no fim. saudades, afinal.
Há dias em que tudo me faz confusão, até uma gargalhada que não entendo. hoje foi um dia assim. Estou à espera, de braços cruzados, até que chegue a próxima hora.

must do's



my dear


Sabes, isto não anda a correr nada bem. Ainda falta muita coisa completar-se e encaixar-se para que tudo fique um pouco melhor. Foi naquele teu último olhar que eu tive a certeza que, se me faltasses, iria ser complicado. E foi através daquele teu último conselho que descobri como a vida dos crescidos é bem difícil. Obrigaste-me a crescer mais rápido, a tomar decisões muito importantes, a fazer escolhas, a pensar mais vezes antes de agir e a ser mais responsável. Agora, que tenho este problema tão enorme, precisava do teu colo, das tuas mãos, das tuas contas, dos teus e-mails e dos teus telefonemas. Precisava que não me tivesses deixado, que não me tivesses obrigado a crescer.

se me perguntarem o que menos gosto de fazer, saberei responder.




sobre o candeeiro do meu quarto...



para o meu futuro namorado.

há alguém aqui que saiba tomar decisões?

amanhã vou ter arroz doce, e leite quente com chocolate, vou ter a tua voz apaziguadora que lembra o 'vai ficar tudo bem' quando haviam feridas nos joelhos. vou ter o meu canto da sala, onde fazia os trabalhos de casa, e estudava geometria descritiva. amanhã vou sonhar acordada através da janela para o quintal, vou falar sobre as coisas novas que fiz esta semana, e vou desejar que as horas não me fujam de entre os dedos.




agora, que as músicas passam, lembro todas as coisas que fui deixando para trás. Lembro que os sonhos da tua vida eram: ter uma casa ao pé do mar, e ir a Paris. Nunca cumpriste nenhum deles.

fui ver Blindness. Foi muito difícil chegar lá, mas valeu a pena todos os mal-entendidos. Escolhi um lugar aleatório, depositei a mala na cadeira do lado esquerdo e despi o casaco cuidadosamente, que depois permaneceu algum tempo no colo. Entrelacei as mãos uma na outra e chamei-me todos os nomes possíveis e imaginários, por ter permitido que os primeiros 15 minutos do filme tivessem sido perdidos - inqualificável. Depois tentei envolver-me cuidadosamente no enredo. A parte que mais gostei foi aquela em que a música protagonizou o papel principal, e em que surgiu uma frase que eu guardei 'A alegria e a tristeza não são como o azeite e a água. Elas coexistem'.
É uma história lógica. Tem o final que eu imaginei. Quando terminou, fiquei até todas as letras desaparecerem (se calhar para compensar os primeiros minutos perdidos), e pensei em ti.

De regresso a casa, desci as escadas lentamente, admirei o caos da cidade e absorvi o frio, aconcheguei as mãos nos bolsos, e tive a certeza que não era, de longe, a pessoa mais feliz do mundo. Que não era, de longe, a pessoa mais especial. Que não era, de longe, a pessoa com mais sorte. Verifiquei que não é assim tão fácil sustentar os sonhos realizados.

um dia vou viver numa casa cheia de luz, porque uma casa de sonho tem que ter muita luz. vou chegar a casa muito tarde porque fiquei a trabalhar. um dia vou ter dinheiro para comprar todos os livros do mundo, e vou a todos os espectáculos do CCB. um dia vou passar muitas tardes nos jardins da Fundação Bulbenkian, e vou pensar muito, e inspirar-me muito, e sorrir muito lá. um dia vou ouvir jazz ao acordar, e jazz ao anoitecer, porque é bom e sabe bem. um dia não vou pensar mais no amor, porque terei todo o amor para mim.
ser feliz é muito subjectivo. mas gostava de ser como tu. muita paz e amor. sem dar nós definitivos para não magoar depois ao desatar.








seria muito mais fácil se soubéssemos só dizer a verdade, se conseguíssemos ser transparentes, e não hesitássemos uma única vez. Seria tão mais fácil (mas muito menos interessante) se os olhos não mostrassem o mundo de coisas que nos vai por dentro.
Seria mais fácil se as pessoas que nós gostamos muito estivessem sempre do outro lado.

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