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Amei três homens em toda a minha vida.
Amei o segundo pela sua inteligência, por ser a única pessoa capaz de me desarmar, de me dar uma resposta que eu não estou à espera, de me impedir de contrapor. Capaz de conseguir, sobretudo, silenciar-me. Amei o primeiro por não ter termo de comparação, teria escolhido outro talvez. Amei o terceiro pelos seus olhos pequeninos, pela sua boca pequenina, pelas suas mãos enormes, pelo seu coração enorme. Ainda agora o queria abraçar, olhar para ele do meu lado esquerdo da cama e me sentir uma mulher sortuda por assistir ao ritmo encantador do seu sistema cardiovascular.
Hoje tenho a certeza que todos os outros homens com quem dormi não foram mais que paixões que passaram à rasca no casting. Lamento ter sido eu a mulher errada destes que amei.
agora, deitada no sofá desde as cinco da tarde, continuo com fome. uma fome preguiçosa de não conseguir sequer pensar em ir à cozinha. ontem fui a pessoa mais feliz do mundo. (agradeci-te em silêncio - eu sei que percebeste.) estava ali, deitada ao pé de um homem maravilhosamente belo, de braços fortes e protectores que me enlaçaram durante a noite inteira. a roupa estava espalhada pelo chão, misturada com os anéis que tirei à pressa. a gata passeava-se pelo terraço e de vez em quando implorava atenção. amei-te porque me fizeste sentir de novo uma princesa que querias sacralizar, amei-te pela tua doçura escondida, pelos olhos pequeninos e brilhantes, os lábios de pêssego, as palavras tão dengosas e seguras. isto pode ser amor, não pode?

fizemos amor da forma mais perfeita possível (há sempre qualquer coisa menos celestial como todos sabemos). foi uma dança inequivocamente maravilhosa, em que tu te entretinhas no meu colo e eu afagava os teus cabelos. depois do amor houve um abraço muito quente e tranquilizante. houve também uma paz de espírito de um desejo irrealizável de ficarmos para todo o sempre assim, como que fazendo parte de um mesmo corpo. assim, precisamente assim.

De repente ouvi o meu coração. Quantas vezes já ouviste o teu coração? Conta-las pelos dedos porque não te lembras ou porque foram realmente poucas. De repente doeu-me muito a barriga e a minha garganta ficou seca. Isto não são clichés, e eu sei q tu sabes que não são, porque já sentiste esta sucessão de sentimentos, por esta mesma ordem. De repente descubro uma coisa que não quero, apesar de a adivinhar. De repente deixo de fazer a tarefa muito importante que estava a fazer e jamais me consigo concentrar nela porque vi aquelas imagens que eu não queria ver. De repente desejei vingança para depois descartar logo essa hipótese. Porque não mereces, porque estás noutra, porque eu afinal não fui nada, porque tu só foste um movimento de coincidências que eu não queria ter gostado. De repente a minha sobrevivência escorreu das mãos de alguém e ficou presa algures. De repente.

ainda me custa acreditar que desapareceste para sempre. a vida aqui em baixo continua difícil. tenho a cozinha para arrumar, a roupa espalhada pela cama todas as noites antes de dormir, as unhas dos dedos dos pés para pintar e mil e uma coisas para procurar porque a mãe guardou e já não sabe onde estão.
é verdade, às vezes com a rotina do dia não me lembro bem que te perdi, mas à noite batem-me umas saudades que nem imaginas. são sempre as boas lembranças que me deixam desesperada. não poder repetir uma coisa boa não faz sentido. uma só vez não chega.


aquela música fez-me gritar, dar murros no volante, fazer pequenos 's' e de repente perceber que a vida não é mais do que isto: apenas (e só apenas) pequenos momentos de felicidade em que poderias morrer no memomento a seguir porque finalmente aconteceu uma coisa boa e que tivesse valido a pena - mesmo que tenha sido só aquela música na viagem de regresso a casa.


Tive o meu primeiro desgosto de amor aos 30 anos e nesse dia pensei porque é que isso não me aconteceu mais cedo. Acho que seria mais fácil porque, por exemplo, uma queda de bicicleta é mais suportável quando se é mais novo.
Nesse trágico dia, entrei no carro e mantive-me lá durante muito tempo, parado numa qualquer rua de Manchester. Uma folha ficou suspensa no pára-brisas e foi apenas nesse dia que reparei numa coisa tão básica como uma folha de árvore. Até lá, tudo permaneceu supérfluo, mas aquele dia apresentou-se diferente. O sofrimento mostra-nos que as coisas mais simples sempre estiveram ali para nós, mesmo quando nada pareceu fazer sentido.
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